Hoje em dia, na área da saúde, muito se fala de Medicina Baseada em Evidências. Para esclarecer, de forma simples: a Medicina Baseada em Evidências é a prática da medicina guiada por evidências científicas. Tais evidências devem ser obtidas através de análises comparativas onde se reúnem estudos científicos de qualidade e os revisam, de forma a demonstrar se aquele conhecimento que foi objeto dos estudos é válido e aplicável, ou não.

Como exemplo, imaginemos que existem 10 estudos de qualidade que analisam se um medicamento X é útil para tratar a doença Y. Temos alguns estudos que dizem que sim e alguns que dizem que não e o que é feito é a análise comparativa de todos os estudos para obter uma conclusão. Tal análise irá dizer que X é útil para tratar Y, que X não é útil para tratar Y ou que não é possível afirmar, ainda, se X é útil e que mais estudos são necessários. Não entrarei aqui em detalhes técnicos sobre o que é um estudo de qualidade, grau de recomendação científica, nível de evidência e outros aspectos mais específicos dessas análises, pois isso foge do objetivo desse texto, que é informar o púbico não especialista no assunto.

Eu concordo que a medicina deva ser praticada sempre com a melhor evidência possível. A evidência serve para mostrar quão próximo estamos da verdade. Quanto mais evidência menor a chance de errarmos, maior a segurança. Porém a sua falta não quer dizer que tal fato não é verdade. A evidência pode ser positiva ou negativa. Quando ausente nada significa.

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Uma vez um colega me falou: – Não acredito em “tal tratamento” pois não há evidência! Esse não é o pensamento correto, ao meu ver. É uma frase vazia. Utilizando nosso exemplo anterior: Se fica comprovado que X é útil para tratar Y, fica claro que X sempre foi útil mas nós descobrimos isso agora. Portanto, algo que não possuí evidência hoje não é automaticamente inválido. Para ser inválido deve haver evidência de que aquilo não funciona. A falta de evidência apenas demonstra que não sabemos ainda se X funciona em Y ou não.

Cabe aqui uma ressalva: A medicina não é uma ciência exata. As pessoas são diferentes por natureza e a manifestação da doença, bem como a resposta do doente ao tratamento é totalmente individual. Quando falamos de evidências no contexto desse texto, falamos daquilo que parece funcionar (ou não) para a maioria das pessoas. Porém, o médico precisa sempre se lembrar de que as vezes o seu paciente não responde como a maioria responde, o que chamamos de idiossincrasia. Logo, para praticar medicina, não basta seguir uma cartilha. É preciso conhecer o seu doente e individualiza-lo. Não tratamos doenças e sim o doente, como já ensinava Hipócrates, o “pai da medicina”.

 

Não tratamos doenças e sim o doente.

A medicina é empírica. É baseada na experimentação e na análise crítica dos resultados. Obviamente falo de empirismo com método. Falo de ciência e de metodologia científica.

Fica claro, à luz da ciência, que a evidência não se forma só. É necessário pensar, ter idéias, fazer a dúvida brotar em nossa mente e deixar as perguntas surgirem. Aí, então, pensar em um modo de responder tais questões, traçar um plano de ação, executá-lo e, de forma imparcial e crítica, analisar os dados obtidos.

A ciência médica não pode parar. Não pode ficar estagnada. É necessário testar as novas tecnologias e descobrir a melhor forma de utilizá-las. Também é necessário sempre avaliarmos se aquilo que fazemos ainda é válido, se ainda é a melhor opção. Obviamente existem meios corretos para fazer isso mas é importante ficar claro que a evolução vem da experimentação.

Ao aceitarmos como certo apenas algo já feito, aguardando passivamente por resultados, estaremos sempre na retaguarda. Precisamos criar, pensar e realizar. Tudo está na dúvida. Descartes, Pascal e muitos outros já afirmaram isso. Estamos em boa companhia.

Temos, então, de viajar, ir a congressos, estudar, conhecer novas tendências e tecnologias, selecionar as que nos parecerem mais razoáveis e, aí sim, desenvolve-las e analisá-las. Dispomos de vários meios para tal. Basta nos organizarmos para fazermos isso juntos. Como disse o Dr. William W. Mayo: – Ninguém é grande o suficiente para ser independente dos outros.

Se seguirmos o caminho da experimentação científica consciente, seguindo todas as etapas necessárias, informando corretamente o paciente sobre suas opções e tendo sua concordância, certamente iremos atingir a vanguarda e a excelência.

Torna-se óbvio aqui que desenvolver a ciência não é para qualquer um. É somente para aqueles com real interesse nesse nobre objetivo. Não podemos, não devemos fazer o novo, o diferente, o inovador apenas por fazer.

Compromisso, Competência e Compaixão!

É preciso termos compromisso, competência e compaixão. Compromisso com a medicina, com a ciência, com o fato de reconhecer a importância do desenvolvimento de ambas, sempre para o beneficio do paciente. Competência pois não basta querer. É preciso saber como fazer pois, caso contrario, será desperdício de tempo e energia, expondo o paciente a riscos inadmissíveis. Compaixão pois essa é a nossa energia, nossa motivação. Compartilhar o sofrimento do nosso paciente e querer ajudá-lo. Não a contemplação do sofrimento mas a busca ativa pelo seu fim.

Somente assim iremos contribuir de forma definitiva e objetiva para o desenvolvimento humano na área da ciência medica.

Acredito que nem todos que leram esse texto até o momento se sentiram incluídos ou imbuídos de tal missão. A estes a melhor opção é continuar sua senda assistencial e seguir as evidências. Aos que compartilham o pensamento de que podemos e devemos evoluir na senda da ciência fica a mensagem de que precisamos nos organizar, unirmos nossas casuísticas, nossos resultados, apresentá-los e discuti-los com os demais, colocando a vaidade de lado e acreditando que assim estaremos cada vez mais próximos da verdade, ainda que distante de tal quimera.

Precisamos buscar as evidências não apenas nos livros ou na nossa livre opinião mas na experimentação científica. Foi, é e sempre será assim que a ciência, em todas as suas formas, ira se aperfeiçoar e evoluir.

 

(Artigo do Dr. Sergio Amaral, também publicado no Facebook)